ABRIGOS DA RESISTÊNCIA

Região IV – Abrigos subterrâneos

O recurso à construção de Abrigos Subterrâneos nas casas das populações para base do Comando da Luta, a partir de inícios de 1990, representa um momento de viragem na estratégia da Guerra de Guerrilha, com o objectivo de reorganizar e consolidar a área da Fronteira, Zona Oeste, que viria a ser denominada Região IV, tendo como ponto de apoio a Zona Autónoma de Dili.

São eles:

  1. Kakaulidun - Dili
  2. Ai Céu - Ermera
  3. Soru Kraik  - Ainaro
  4. Ersoi - Ermera
  5. Mirtuto - Ermera
  6. Loblala – Ermera
  7. Leotala – Likisá
  8. Humboe – Ermera
  9. Lourba – Bobonaro

Dadas as difíceis condições naturais do terreno, que não ofereciam locais seguros de esconderijo para os Guerrilheiros, como os utilizados até então na Ponta Leste e Centros - abrigos naturais: grutas, arvoredo fechado – e sendo o objectivo do Comando alargar a Luta de Resistência a todo o território, a sustentação passou a ser as Casas das Populações, ou seja, a Frente Clandestina com uma nova dimensão e papel na Luta. Kay Rala Xanana Gusmão chegou a estas áreas em finais dos anos 80, estabelecendo contactos com os focos de resistência que ali permanecia isolados, de molde fazer um levantamento das condições reais da área para proceder à sua reorganização, o que constitui a génese da Região IV. Konis Santana passa a assumir a liderança da Luta, em Maio de 1993, Chefe do Conselho Executivo da Luta, Frente Armada, Frente Clandestina (CEL- FA/FC) na sequência das capturas de Xana Gusmão, em Novembro de 1992, e de Ma Huno, Abril de 1993. Com o objectivo de ampliar o movimento de guerrilha a todo o território, Konis passa a estabelecer contactos com os grupos isolados e com as populações, coadjuvado por Somotxo Matar Mimiraka (José Agostinho Sequeira), Secretário da Região IV. Consolidava-se, assim, o papel das Populações enquanto sustentáculo da Luta Armada, inscrevendo-se indelevelmente na História da Resistência do Povo de Timor-Leste a importância da Frente Clandestina. Durante a luta contra o ocupante, a Resistência utilizou diferentes tipos de abrigos ou esconderijos:

  • Abrigos naturais nas montanhas (grutas, locais ocultados pela vegetação e de difícil acesso, etc.);
  • Abrigos ou casas clandestinas nas vilas, geralmente de pouca permanência ou para situações de perigo iminente;
  • E, mais tarde, já nos anos 90, abrigos subterrâneos escavados em casas de habitação, mais ou menos isoladas.

As imagens que mostramos são de abrigos subterrâneos, onde estiveram instalados, em diferentes períodos, membros do Comando da Luta. Esses abrigos, construídos sob a orientação do Comando da Luta como refúgio perante investidas das tropas indonésias, foram progressivamente alargados, ganhando dimensão e estrutura e permitindo a muitos dirigentes da Resistência ocultarem-se neles durante largos períodos, daí dirigindo as actividades políticas e militares. Os abrigos subterrâneos tinham, naturalmente, os respectivos acessos dissimulados dentro das próprias casas (por exemplo, num oratório construído para ocultar a entrada, numa casa de banho, numa arrecadação, etc.), possuindo ainda alguns deles um túnel que servia de saída de emergência para o exterior, além de garantir a renovação do ar.

Estes abrigos, em avançado estado de deterioração, foram recuperados pelo Arquivo e Museu da Resistência Timorense, no âmbito do Programa de Reabilitação dos Abrigos Subterrâneas, que decorreu em 2015 e 2016, em paralelo à recolha de testemunhos orais. Neles foram recolhidos, em 2004 e 2005, importantíssimos acervos documentais, guardados e preservados pelos donos das casas até então e que hoje são o núcleo central do Arquivo da Resistência Timorense.

Para a cabal compreensão da construção dos Abrigos subterrâneos, há que ter presente o binómio Segredo – Sagrado. O Segredo, constante na Guerra de Guerrilha Timorense, quando rompido - por confissões arrancadas da Alma, traições voluntárias ou involuntárias - quantas mortes, sangue, sofrimento, torturas até hoje inconfessáveis, de famílias inteiras, povoações, aldeias.

A especificidade das complexas e fortíssimas redes familiares tradicionais – ancorada nas Uma Lisan -  assumiu determinante importância nos mais diversos aspectos do Ímpar Movimento de Guerrilha Timorense, especialmente no interior do território, nas Montanhas e Vilas.

De par, extraordinária a Abnegação, Coragem, Total Entrega pela Libertação da Pátria, de todos quantos aceitaram esconder, dar guarida, alimentar, cuidar e proteger os Guerrilheiros; transformar suas casas em Abrigos do Comando da Luta, muito bem sentindo, a cada momento, que suas Vidas, de suas famílias, da sua aldeia, nas “Mãos de Maromak”, com Protecção dos Matebians, a pontos de seu instinto de sobrevivência aguçado ao mais impercetível ruído: “Na noite ouvíamos o barulho duma agulha a cair”…

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