Abrigo de Mirtuto

Detalhe de abrigo

CONSTRUÇÃO
“Quem faz o abrigo está só à espera da morte.”
Palavras de Caetano Ximenes, nome e código TG, em tom suave, com o olhar fixo no aparente nada, a desfiar indizíveis sofrimentos, medos, alegrias, turbilhões de memórias infinitas, demasiado para caber em palavras.
Dono do Abrigo subterrâneo de Mirtuto – com sua esposa Isabel Ximenes, uma vida de dedicação à Luta - base permanente do Chefe do Conselho Executivo da Luta/Frente Armada-CEL/FA, Nino Konis Santana, desde a sua construção, finais de 1994, até à sua morte, 11 de Março de 1998.
A necessidade de segredo absoluto levou a que a participasse na sua construção apenas a família restrita, bem com os guerrilheiros que utilizaram o abrigo e todo o trabalho era feito na calada da noite. Foram  necessários três meses para escavar o buraco e concluir as obras necessárias.
O Abrigo encontra-se dissimulado por um altar, cujo alçapão de acesso se encontra a  seu lado. Tirando partido do facto de ser catequista, enquanto ia fazer as suas orações dissimulava a comida, os documentos, enfim, tudo o que fosse necessário, debaixo da lipa, dava o sinal e fazia a entrega a Konis.
Foi construída uma saída de emergência virada para a Montanha, de molde a que caso houvesse necessidade de fuga perante ataques do inimigo, os Guerrilheiros por ali pudessem escapar para os cafezais. 
Explica que “este abrigo foi ideia do saudoso Konis, quando vieram durante 3 meses eu escondi-o no quarto (que ainda hoje existe)”, e tirando partido das profundas ligações familiares, (ambos de Tutuala, Ponta Leste) pois, como refere, “nós os dois somos da mesma terra, quando falamos fataluku as pessoas não entendem, os vizinhos não entendem.”
Apesar do Abrigo nunca ter sido descoberto pelo inimigo, uma ocasião, em 1997,  as forças militares indonésias desconfiando que por ali se escondia Konis Santana e seus guerrilheiros, fizeram uma operação surpresa.  “Estiveram duas semanas dentro de casa. Depois o resto, mais de um mês, também fizeram operação no cafezal, mas só uma ou duas semanas. Durante duas semanas dormiram aqui, comeram aqui.”, recorda Isabel Ximenes, que tinha a obrigação de cozinhar para os militares.
Konis Santana encontrava-se no interior do Abrigo, juntamente com Hamar, Hakiak e Somotxo, Secretário da Região IV, estava a curta distância, escondido na sua base, o Abrigo de Loblala.
Com os militares acampados em casa, alimentar Konis Santana e Hamar afigurava-se um problema, que a argúcia permitiu ultrapassar, com recorda TG, entre sorrisos de memórias de aflição, alegria e triunfo. “A minha preocupação era não lhe dar comida. Eu pensei e disse à minha mulher que era melhor irmos rezar. Esta foi uma iniciativa minha. Eu pedi ao comandante. De noite eu ia buscar a marmita do Konis, a comida não tinha molho. O arroz num prato da marmita. A marmita tinha dois compartimentos. Eu tapava a marmita com uma manta e depois ia pedir ao comandante, eu dizia “nós vamos rezar”. Então os indonésios deixavam-nos ir rezar, diziam “faz favor".”
Aqui, em Mirtuto, importantíssimas decisões politicas foram tomadas pelo Comando da Luta: Em Maio de 1995 realizou-se a reunião entre Konis Santana e Sabalae, Maio para proceder à reorganização da Luta – Frente Armada, Clandestina, Diplomática -  tendo nesse momento sido criada a OPJLATIL, sob a liderança de Aleixo Cobra e  Criado, com o objectivo de unir as várias organizações da Juventude. Ali, também foi tomada a decisão de expulsão de Abílio de Araújo da FRETILIN, passando Xanana Gusmão a reassumir a liderança máxima da Luta.
Em finais de 2001 foi recuperado todo o importantíssimo Arquivo de Konis Santana, guardado anos e anos a fio pelos donos da casa e família, no maior dos segredos, continuando, assim, a desafiar a morte. Uma simples página dum documento, uma fotografia, que fosse encontrado pelo inimigo significava sentença de morte para toda a família da casa e famílias da área circundante. Ainda assim, e graças a uma impar coragem e determinação, foi guardado intacto constituindo  o núcleo central do que é hoje o Arquivo e Museu da Resistencia Timorense.
BIOGRAFIA
Caetano Lopes Ximenes, nome gentio Lavanu, nasceu a 3 de Março de 1954 na aldeia de Loro, Pitilete, Tutuala.
Fez os estudos em Fuiloro, Tutuala. Aí frequentou a Escola Primária, e, mais tarde, prosseguia a sua educação formal no Colégio Dom Bosco.
O serviço militar obrigatório durante o tempo colonial português obrigou-o a deslocar-se para Ermera. Aqui se fixou, em resultado do casamento com a sua actual esposa, Isabel Trindade, nascida em Rai-Lori, Mirtuto, a 15 de Outubro de 1954. À data da Invasão militar indonésia, era professora da pré-primária, profissão que continuou a exercer durante os 24 anos, apenas interrompida pelo período em que foi obrigada a refugiar-se no Mato para escapar à morte.
Também a Caetano, tal como a milhares e milhares de outros timorenses, a Invasão obrigou-o a refugiar-se as montanhas, onde foi Comandante de Companhia, até 1979, momento da rendição em massa.
Na vila, passa então à actividade Clandestina, que prossegue até ao final da Luta.
A sua ocupação na Igreja de Ermera, catequista, é a chave para afastar as atenções do inimigo de todo o seu profundo envolvimento na Resistencia Clandestina. Trabalhava com o Padre Mário Belo – destacada figura da Igreja no profundo apoio à Resistência Armada/Clandestina, que assumiu papel crucial nas movimentações de
Xanana Gusmão nos finais dos anos 80 na Zona Oeste.
É precisamente o facto de ser catequista, como o próprio recorda, que lhe dá a ideia de construir um altar para, logo ali ao lado, construir o acesso ao abrigo subterrâneo que serviu de base a Nino Konis Santana, Chefe do Conselho Executivo da Luta, Frente Armada/Frente Clandestina, até à sua morte. Dessa forma, recorda Caetano, mesmo quando o inimigo acampou na casa durante dias e dias, era possível entregar as refeições a Konis e a seus homens, que, no esconderijo, aguardavam a retirada das forças militares indonésias. Punha a lipa, e debaixo dela levava a panela com as refeições, explicando aos militares que ia orar...
Este permanente desafio da morte, com incomensurável empenho, dedicação e coragem, em nome dum objectivo maior, a libertação da Pátria do jugo do vil ocupante -  em Mirtuto e em todos os outros abrigos da Luta, como de toda a outra actividade Clandestina – contava com o total envolvimento das crianças da casa. Era a elas a quem competia fazer a segurança, atentos a todos os movimentos nas áreas circundantes. Explorando a sua própria condição de crianças, envolvidas nas suas brincadeiras delas ninguém desconfiava. Ao menor movimento estranho dele davam conta para casa, mediante códigos previamente acordados. Aliás, toda a actividade clandestina era fundada numa extraordinária diversidade codificada, forma de contornar a brutal força militar do inimigo, em número e armamento.
FICHA TÉCNICA 
Ano de construção: 1994
Local: Aldeia Mirtuto, Suco Poetete, Ermera. Situado na casa de Caetano Lopes Ximenes e Isabel Antónia Trindade.
Construtores: Caetano Lopes Ximenes e família da casa, Jorge Manuel Albino e família.
Utilizadores: Nino Konis Santana, Somotxo Matar Mimiraka, Hamar, Hakiak.
Reabilitação: 2015, financiado pelo Estado da RDTL através do orçamento do AMRT. Implementado pelo AMRT.  Projeto incluiu reabilitação integral do abrigo, reabilitação da casa, drenagens e arranjos exteriores, e construção de novo memorial dedicado a Nino Konis Santan a.

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