Abrigo de Loublala

Detalhe de abrigo

CONSTRUÇÃO
A construção do Abrigo subterrâneo em Poetete, Loblala, tal com o de Mirtuto, insere-se na estratégia do Comando da Luta de dispor de lugares alternativos que permitissem a movimentação do Comando da Luta, e subsequente protecção, caso o inimigo cercasse a área de Ersoi.
A casa da família está inserida num espaço rodeado por vasto arvoredo, onde é possivel chegar através de exíguos e difíceis caminhos através da floresta.
“A ordem de construção do abrigo de Loblala foi dada pelo comando da luta, por Nino Konis Santana, do qual não se sabe, naquela altura, nenhum nome de código, era mais conhecido por Maun Konis.”, explica Lima-Lima.
Assim, inicialmente, em finais de 1993, foi escavado um pequeno buraco na varanda “para salvar apenas os documentos e as armas, para evitar qualquer situação que pudesse acontecer.” Mais tarde, em 1994, “pensamos na necessidade de um espaço para proteger a liderança da Luta, e o pequeno era insuficiente. Então, o abrigo pequeno foi tapado depois de terem desenvolvido e construído o abrigo grande que ainda existe agora.”
Explica como foi o processo de construção, em que, à semelhança de todos os outros, participou apenas a família, por óbvias razões de segurança.
“Como a situação na altura era demasiado perigosa, o processo de construção do abrigo grande começou com a construção de um muro, como se se tratasse da construção de uma casa. Esta primeira etapa demorou cerca de um mês e meio. Depois desta parte e de colocarem a porta, começou o processo de escavação, que durou quase 15 dias. Era necessário escavar mais ou menos uma hora e depois retirar e fazer desaparecer a terra que era escavada. Depois era preciso ter em consideração a situação. Se não havia movimentações, patrulhamentos, então podia escavar-se com mais frequência. Quando a situação não estava boa, tinham de cavar de noite. Cavaram de noite durante quase 15 dias. 15 dias foram apenas para escavar. Para construir, lá dentro, foi preciso um mês. Para a construção total foram precisos 3 meses.”
Lima-Lima, explica também que “Uma vez que o abrigo de Lublala e os outros de Ersoi e Mirtutu estão próximos, a movimentação dependia do volume de serviço ou de estratégias. Alguns iam para se encontrarem com jornalistas, com os padres, com activistas. Então para que os abrigos não fossem descobertos era necessário retirarem imediatamente dos lugares onde decorriam os encontros.”
A segurança destes espaços assumia importância preponderante, como bem se entende:
“ A segurança era feita por mim e pelos familiares de confiança que viviam comigo, o irmão, os filho e a mulher. Duas ou três pessoas faziam constantemente a segurança, movimentavam-se, para perceber se havia movimentação do inimigo. Quando detetavam alguma coisa ou havia alguma movimentação, não informavam diretamente o Comando da Luta ou o Comando da Região, informavam-me diretamente. Como responsável, por rádio fazia o aviso e informava que havia movimentações e que, por isso, era necessário ficar no abrigo.”
Este espaço foi a base permanente do Secretário da Região IV, à data nome de código Piti Lakon Mosu, também Somotxo Matar Mimiraka, entre muitos outros nomes de código, (José Agostinho Sequeira), que ali permaneceu até 1998, data em que recebe a ordem do Comando para ir para Portugal clandestinamente a fim de se responsabilizar por trabalhos da Luta.
Neste Abrigo, em 2004, o Arquivo e Museu da Resistência Timorense recuperou o amplo arquivo documental do Secretário da Região IV, que ali se encontrava acondicionado em malas e sacos.
BIOGRAFIA 
António dos Santos nasceu a um 01 de Março de 1960, Puetete, Ermera.
Nome de código Lima-Lima (cinco-cinco).
Depois da escola primária ingressa na pré-secundária, interrompida com a Invasão das forças militares indonésias obriga à sua retirada para o Mato.
Já durante o regime de ocupação, fez o curso de professores durante três anos, de 1980 a 1983, tendo exercido a profissão de professor.
Depois da fuga para o Mato, regressa à Vila, onde, a partir de 1986, começa a organizar pequenos grupos clandestinos para a apoiar a guerrilha no Mato. Para lá enviavam toda a espécie de bens que conseguiam obter clandestinamente, desde munições, mantimentos, fardamento, a medicamentos, e, ao mesmo tempo, correspondência. 
Com o estabelecimento da Região IV na parte Norte, tornou-se o responsável pelas finanças da estrutura, trabalhando directamente com o Comando da Luta.
Conforme explica, “Naquele tempo o serviço da clandestina era muito difícil, podíamos assumir cargos, mas também tínhamos de assumir outras funções, como estafetas, seguranças, levar algumas cartas quando não havia ninguém para o fazer, colocá-las na caixa postal da Igreja, por exemplo. Quando era necessário entregar alguma carta, ou receber de algum outro comandante era necessário colocar na Caixa, se não havia ninguém para a ir buscar, se não havia nenhum estafeta, então ele, tal como os outros, podia servir de estafeta para poder ir buscar as cartas e trazê-las para o Comando.”
FICHA TÉCNICA
Ano de construção: 1994
Local: Aldeia Loblala, Suco Poetete, Ermera. Situado na casa de António Salsinha, “55”.
Construtores: António Salsinha, Lima Lima e família.
Utilizadores: Somotxo, Hamar, Hakiak,
Reabilitação: 2016, financiado pelo Estado da RDTL através do orçamento do AMRT. Implementado pelo AMRT.  Reabilitação incluiu reforço estrutural do abrigo, reabilitação do interior de acordo com original, reabilitação parcial da casa e construção de instalações sanitárias públicas.

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